Saber escrever

Fátima Mariano - Comunicação

Numa época em que o conteúdo é rei, saber escrever é imprescindível para que que os textos sejam bem indexado pelos motores de busca. Mesmo os artigos jornalísticos são muitas vezes construídos tendo em conta esta nova realidade. Se por um lado constitui um desafio, por outro acaba por condicionar a criatividade de quem escreve.

Mas saber escrever é muito mais do que isso. É também não cometer erros gramaticais ortográficos ou factuais,  dominar o vocabulário para não repetir palavras e utilizar a linguagem mais adequada ao público a que se dirige (e isto nada tem que ver com estilo de escrita).

Saber escrever não deve ser uma preocupação apenas de quem utiliza a escrita como instrumento principal de trabalho (jornalistas, escritores, bloguistas, etc.), mas de todos os profissionais.  Um texto com erros ou uma linguagem confusa dificulta a leitura, pode gerar mal-entendidos, e, por conseguinte, prejudicar a imagem profissional de uma pessoa ou de uma organização.

 

 

Caso reais

Há pouco tempo, o responsável de uma empresa à qual pedi um orçamento desejava que este fosse «de encontro» às minhas expectativas. Porém, o que pretendia escrever era que desejava que o orçamento fosse «ao encontro» das minhas expectativas.  

Este é um erro muito comum. Ir de encontro a significa colidir, fisicamente, com algo ou com alguém. Por exemplo, o carro foi de encontro (=embateu, colidiu) ao muro. Ir ao encontro significa estar em harmonia, estar de acordo com.

Um outro erro muito comum (mais na oralidade do que na escrita) é a expressão há anos/meses/dias atrás. Esta frase é gramaticalmente incorrecta. Também diz/escreve há anos/meses/dias à frente? Não. Nestes casos, a utilização errada do advérbio atrás resulta da influência da língua inglesa – years/months/days ago.

Contudo, há quem defenda este tipo de expressão com o argumento de que o objectivo é reforçar a ideia de passado. Foi a resposta que obtive de uma conhecida marca de cosméticos quando enviei um e-mail a lamentar um erro tão grosseiro num anúncio publicitário sobre o cancro da mama.

Estes são apenas dois casos em como erros gramaticais podem prejudicar a imagem profissional de uma pessoa ou de uma organização. Sempre que existir uma dúvida, o aconselhável é recorrer a um dicionário, gramática, prontuário, etc. Ou, em alternativa, contratar os serviços de um profissional na área da escrita e da revisão de texto.  

 

 

Não corra riscos. Se precisa de ajuda, contacte-me, e peça um orçamento personalizado. Estou aqui para ajudá-lo/a.

Ser jornalista

Fátima Mariano - Comunicação

O que é isso de ser jornalista? Costumo dizer que o jornalismo não é apenas uma profissão, mas também uma forma de estar na vida. Pelo menos, o jornalismo como eu o entendo, e como me foi ensinado na faculdade.

 

Não me recordo do momento em que decidi ser jornalista. Em criança, desejava ser médica veterinária; já adolescente, quis ser actriz;  afinal, acabei por me fazer jornalista. Quando anunciei a decisão, várias pessoas ficaram boquiabertas: como seria possível uma pessoa introvertida e de poucas falas ser jornalista? É possível, e não sou a única pessoa a prová-lo.

 

Lembro-me de que quando a Guerra do Golfo começou, no verão de 1990, comprei o jornal Público diariamente (incluindo as segundas edições) para acompanhar o mais possível o que se passava. Não perdia um noticiário na televisão nem as emissões especiais (é preciso ter em conta que não havia televisão por cabo nem Internet). Sonhava um dia estar no lugar daqueles jornalistas, mesmo no centro dos acontecimentos históricos, a denunciar o mal que grassava pelo mundo.

 

Para mim, o jornalismo era também isso. O relatar a História em primeira mão, o contribuir para uma sociedade mais justa, equitativa, informada, educada, o questionar os poderes instituídos. Tinha uma visão muito romântica do jornalismo, que se foi esboroando com os anos. Apesar de continuar a acreditar nos valores que regem (deviam reger) a profissão.

Uma questão de ângulo?

A fotografia que ilustra este texto é, de entre as várias que me retratam no exercício da profissão, a minha favorita. Foi tirada pelo saudoso João Ribeiro (1925-2016) – um dos maiores fotojornalistas portugueses – em 1998 ou 1999, quando trabalhávamos no Jornal de Notícias.

 

Estávamos a recolher informação sobre um assalto, e o Joãozinho (como carinhosamente o tratávamos) tirou a fotografia enquanto eu entrevistava um mecânico. O facto de ser um presente do João seria motivo mais do que suficiente para guardar esta fotografia num lugar de destaque. Mas não é o único.

 

Quando, na altura, a mostrei a alguns amigos, perguntaram-me em tom de gozo: «Então, agora entrevistas pneus?» É verdade. Ao primeiro olhar, e tendo em conta a posição em que me encontro, de facto, parece que estou a falar com o pneu. Também por isso, esta fotografia se destaca das outras. Porque me lembra que o jornalista tem a obrigação de ser isento e imparcial. Tem a obrigação de dar o retrato completo. De ser factual, e de remeter a opinião para os espaços próprios.

 

Não importa o meio em que o trabalho jornalístico é divulgado (papel, rádio, televisão, digital, etc.), estes valores são (ou deveriam ser) sagrados para o jornalista. Ou então, estamos a falar de outra coisa que não jornalismo.

 

De que serve realizarem-se congressos para debater a crise do jornalismo se, na prática diária, os jornalistas não respeitarem os valores-pilares da sua profissão? Para que são precisos websites de fact-checking se a confirmação dos factos é uma das obrigações dos jornalistas?

 

O suicídio

Dos muitos acontecimentos que acompanhei com o Joãozinho, recordo de um em particular. Certa manhã, soubemos que uma mulher tinha cometido suicídio, atirando-se de uma das janelas da casa na qual vivia. Quando chegámos, estava a Polícia no local, mas o corpo não estava coberto, o que causava indignação a quem por ali passava. Enquanto eu tentava perceber o que tinha acontecido, o João fotografava o cadáver.

 

Quem conheceu o João sabe que ele seria incapaz de explorar o lado mórbido da história. Queríamos apenas denunciar o facto de o corpo daquela mulher estar na via pública, descoberto, visível aos olhos de todos, e há muito tempo. Há demasiado tempo.

 

Passaram-se algumas horas até o cadáver ser tapado, e só quase oito horas depois da morte, foi retirado pelas autoridades. O motivo? Não havida delegado de saúde disponível para declarar o óbito no local. E esta foi a nossa história.

 

Enquanto acompanhávamos o caso (não arredámos pé até o corpo ser levantado), disfarçadamente, o João entregou-me o rolo que continha as fotografias com o cadáver a descoberto (sim, nesta época, os fotógrafos ainda trabalhavam com rolo). Fiquei confusa, e perguntei-lhe: «Porquê?» A resposta surpreendeu-me: «Não vá a Polícia querer confiscar o rolo da máquina. Assim, levam o rolo errado.» E sorriu.

 

Não sei se esta atitude do João se deveu ao facto de ter trabalhado durante muitos anos num país em que a liberdade de imprensa não existia. O importante para ele, naquele momento, era salvaguardar as provas de um caso que devia ser denunciado. Esta foi apenas uma das muitas lições que aprendi com o Joãozinho. Sobre a profissão, e sobre a vida.

 

Passagem de testemunho

Esta troca de conhecimentos e de experiências entre as várias gerações é algo que faz muita falta ao jornalismo actual. Os jornalistas mais experientes são, quase sempre, os primeiros a serem despachados nos processos de despedimento ou de «rescisão amigável».

 

As redacções estão cada vez mais vazias de pessoas, e as que subsistem mal têm tempo para respirar quanto mais para acompanhar os jornalistas em início de profissão.

 

Há cada vez mais jornalistas sem redacção, e cada vez mais redacções sem jornalistas.