Maria

abraço

Conheço Maria há muitos anos. É uma rapariga de afectos, que distribui beijos, abraços e sorrisos a toda a gente. Mesmo quando às vezes, lá por dentro, está a chorar, e precisa de ser ela a beijada e a abraçada.

 

Sempre a conheci assim. Até nas ocasiões mais formais, a Maria facilmente troca um aperto de mão por um beijo, e até nos e-mails profissionais, não são raras as ocasiões em que termina com «Um beijo», mesmo que do outro lado lhe respondam com «Um abraço».

 

Mesmo depois de todos os tropeções que já teve na vida, de todas as traições, de toda a violência, a Maria continua a distribuir beijos, abraços e sorrisos. E não gosta quando a critico por isso, e pelas vezes que já perdoou pessoas que a magoaram profundamente e a quem lhes voltou a abrir a porta de casa e do coração.

 

Acredita sempre que estão sinceramente arrependidas, que gostam mesmo, mesmo dela, quando está à vista de todos que a Maria é a única pessoa disponível no momento…. Como ela própria acaba, mais tarde, por concluir.

 

 

A amiga

A Maria teve uma amiga que falava pelos cotovelos. Conhecia-a um dia, apenas por cinco minutos, e não consegui perceber como é que a Maria conseguia aturar uma pessoa que não dava oportunidade aos outros de se exprimirem. Que fazia as perguntas e dava as respostas, que sabia sempre tudo de tudo, que conhecia toda a gente. Certa vez, perguntei-lhe como aguentava. «Porque somos amigas», respondeu-me.

 

Um dia, a Maria descobriu que essa amiga lhe tinha mentido. Perdoou-lhe, porque eram amigas. Uns meses depois, voltou a descobrir que a mesma amiga lhe voltara a mentir. E a Maria voltou a perdoar-lhe. Até que um dia, numa troca de palavras a propósito de uma terceira pessoa, a amiga mandou-a procurar os amigos, que ela já tinha feito o mesmo. Aquilo doeu à Maria. «Mas afinal, não eram amigas?».

 

Tentei desdramatizar o caso. Disse-lhe que era nos momentos dramáticos que sabíamos quem eram os nossos verdadeiros amigos, que talvez a amizade não fosse assim tão forte. Durante algum tempo, a Maria ainda teve a esperança de que aquela relação fosse retomada, que a amiga agora ex-amiga iria cair em si e lhe pediria desculpa por ter sido injusta, que tudo se iria esclarecer.

 

Mas os dias iam passando, e do outro lado, o silêncio. Até que a Maria se convenceu de que não havia volta. Que aquela amiga agora ex-amiga se tinha ido de vez, e com ela, umas tantas pessoas com quem as duas se davam. «Mas porquê, se nunca lhe fiz mal?» Não soube responder-lhe.

 

 

Quando sobra mês

Até há uns anos, eu e a Maria saíamos frequentemente com amigos em comum. Até que ela começou a deixar de ir. Arranjava sempre uma justificação: ou tinha trabalho, ou médico, ou já tinha outra coisa combinada, ou ia ajudar não sei quem, ou…, ou…, ou…

 

Aos poucos, vários dos nossos amigos cansaram-se, e deixaram-na de convidar fosse para o que fosso. Logo à Maria, que pelo menos naqueles momentos-chave (como os casamentos, os aniversários do filhos, as formaturas, etc.) fazia todos os esforços para estar presente.

 

Um dia, meio a brincar, meio a rir, disse-lhe: «Qualquer dia, também eu deixo de te convidar seja para o que for.» Desatou a chorar, e eu senti-me sem chão. Foi então que me explicou que na maioria das vezes não aceitava os convites porque lhe sobrava mês. O dinheiro lá em casa era tão contado, que raras vezes chegava para ir sair com os amigos. E, por isso, tinha decidido não aceitar mais convites.

 

Fiquei a pensar naquilo. Desliguei e fui ter com ela. Levei-a a uma das nossa pastelarias favoritos e devorámos uma gigantesca fatia de bolo de chocolate cada uma. Fi-la prometer que nunca mais recusaria um convite meu por aquele motivo, mas eu conheço a Maria há muitos anos.

 

 

Domingo de Páscoa

No domingo de Páscoa, telefonei à Maria. Ficou felicíssima. Mais ninguém lhe tinha telefonado. Recebera umas imagens pelo Messenger a desejar uma boa Páscoa, daquelas imagens que se enviam a todas a toda a gente e mais alguma, como se se estivesse numa linha de produção em série.

 

«Nem agora, que está tudo em casa, há tempo para escrever uma mensagem personalizada?», perguntou, de forma retórica. «Que valor tem uma imagem que se envia para não sei quantas pessoas carregando apenas num botão? Que verdadeiros sentimentos carregam essa mensagem?». Não soube responder-lhe.

 

Falo frequentemente com a Maria. Preocupa-me muito a Maria que vou encontrar quando a normalidade regressar aos nossos dias. Quando tantas pessoas falam nas saudades dos beijos e abraços que não têm podido dar, de como se arrependem de tantas vezes não terem dado aquele beijo e aquele abraço, a Maria diz que se arrepende é de muitos dos beijos e dos abraços que deu. Que há que ser mais racional, mais cautelosa, mais parcimoniosa nos afectos.

 

Preocupa-me muito a «minha» Maria e todas as outras Marias que existem por esse mundo fora, que muitas vezes são invisíveis até para aqueles que lhes estão mais próximo.