Ser redactor freelancer: prós e contras

Copywriter

Um redactor freelancer é alguém que se dedica à escrita de textos. Sejam estes informativos, publicitários ou literários. Para blogues, órgãos de comunicação social, sítios na Internet ou panfletos publicitários.

Pode trabalhar directamente para os clientes, através de uma agência ou de ambos os modos, e  concilia clientes regulares com pontuais.

Há quem decida ser redactor freelancer por vontade própria e quem o seja impelido por circunstâncias várias.

Neste artigo, apresento algumas das vantagens e desvantagens desta actividade.

 

1 – Os contras

Rotinas de trabalho

Uma das razões pela qual algumas pessoas preferem trabalhar por conta própria deve-se à ideia de que poderá organizar o tempo livremente. No entanto, isto não é totalmente verdade.

Não tendo um horário de trabalho fixo, são os clientes que muitas vezes acabam por ditar o nosso dia a dia.

São eles quem determinam os prazos de entrega dos trabalhos.  No caso de entrevistas, o local, dia e hora em que se realizam são indicados por eles, embora possa haver alguma flexibilidade.

Mas é possível organizarmos o nosso tempo de trabalho dentro dessas condicionantes. No meu caso, a escrita corre melhor a partir das 18 horas.

Sempre que tenho de escrever no período da manhã ou ao início da tarde, demoro muito mais tempo, e o estilo do texto não parece tão natural. Por este motivo, sempre que possível, reservo o fim da tarde e a noite para essa actividade.

Para outros serviços, como a revisão de texto, a pesquisa bibliográfica ou arquivística ou a transcrição de áudios, o período do dia é irrelevante.

É importante saber em que altura se é mais produtivos. Dessa forma, organizamos  melhor o  trabalho e rendibilizamos o tempo.

 

A instabilidade financeira…

A instabilidade financeira não é exclusiva dos redactores freelancers. Afecta todos os trabalhadores independentes, sobretudo em períodos de crise económica como o que vivemos.

Embora possamos pedir ao cliente que nos pague uma parte do custo do trabalho no momento da adjudicação, nem sempre isso é possível.

Em muitos casos, o recibo só é emitido depois de o texto aprovado ou publicado, e o pagamento feito dois ou três meses depois.  Este período pode ser superior no caso de instituições superiores.

Há ainda as situações em que o cliente atravessa problemas financeiros e, por isso, adia o pagamento para datas não definidas. Consequentemente, a instabilidade financeira do trabalhador freelancer pode igualmente agravar-se. 

No tempo que medeia uma e outra etapa, o trabalhador independente não deixa de ter despesas (fixas e extras). Entretanto, se cobra IVA, tem de o devolver ao Estado, mesmo que ainda não o tenha recebido do cliente.

Além da receita mensal ser muito variável, o redactor freelancer também nunca sabe o dia em que o dinheiro entra na conta bancária.

 

… e a instabilidade emocional

O trabalho de um redactor freelancer é muito solitário. Há quem escreva em espaços públicos, como cafés ou bibliotecas, para se sentir mais acompanhados. Mesmo que não converse com ninguém que esteja à sua volta.

Do que tenho mais saudades dos tempos em que trabalhava numa redacção é da troca de ideias e de contactos, da partilha de conhecimentos, da entreajuda. Quando se trabalha isolado, essa rede de apoio é muito reduzida ou inexistente.

Devido à instabilidade financeira, por vezes há tendência em aceitar ao mesmo tempo vários trabalhos complexos e com prazos de entrega curtos. O resultado por ser a exaustão cerebral, a diminuição da qualidade do trabalho e o incumprimento dos prazos. Tudo isto tem consequências na vida pessoal, familiar e profissional.

A entrega do trabalho na data acordada é importante, mas a qualidade também o é. Porém, conjugar estas duas vertentes nem sempre é fácil.

Por outro lado, a inspiração não chega quando queremos/precisamos. Mesmo os redactores mais experientes têm bloqueios criativos (a famosa síndrome da página em branco).

 

Amigos, amigos…

A estas questões, acresce uma outra: a da confidencialidade. Não se esqueça que está obrigado ao sigilo, mesmo que não exista um contrato redigido.

Ao assumir um compromisso, sabe que não deve comentar pormenores sobre o mesmo nem divulgar o conteúdo de e-mails ou o próprio trabalho junto de terceiros. Por muito grande que seja a tentação naqueles momentos em que o trabalho corre menos bem ou quando tem um cliente difícil.

Todos nós temos necessidade de desabafar, mas devemos saber escolher com quem o fazemos e como o fazemos.

Recorde-se daquele dito popular que diz «Um amigo, um amigo tem». E o amigo do amigo, também tem um amigo. Ou seja, aquele desabafo poderá, mesmo que involuntariamente, chegar aos ouvidos do cliente e prejudicar o seu trabalho e a sua imagem profissional.

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2 – Os prós

Trabalhar com quem queremos…

Ser redactor freelancer não tem apenas aspectos negativos. Há, também, um lado atractivo.

Em teoria, podemos escolher os clientes para os quais queremos trabalhar. Se a relação se deteriorar, mais facilmente se rompe o vínculo (depois de cumpridos os compromissos já assumidos).

Se nos identificarmos com os valores do cliente e com o trabalho proposto, melhor será o resultado final, e ambas as partes ficarão satisfeitas.

Ao trabalharmos com vários clientes, estamos a diversificar o nosso portefólio, a alargar os nossos conhecimentos sobre áreas diversas, a adquirir novas ferramentas de trabalho e a conhecer novas realidades.

Isto poderá incentivar-nos também a aprender mais sobre um determinado assunto, frequentando um curso, participando em seminários ou lendo livros e jornais/revistas.

Desta forma, crescemos enquanto profissionais e enquanto seres humanos.

… onde queremos…

Um computador com ligação à Internet e um telemóvel são o suficiente para executar o trabalho. Ou seja, é possível trabalhar em qualquer parte do mundo (incluindo numa praia das Caraíbas).

Excepção apenas quando é necessário realizar entrevistas presenciais. Ou fazer pesquisas em arquivos e/ou bibliotecas (embora existam já muitas fontes documentais acessíveis na Internet).

Graças às novas tecnologias, o nomadismo digital é cada vez mais uma realidade um pouco por todo o mundo. Incluindo em Portugal.

Trabalhando onde queremos, podemos vestir roupa mais informal e mesmo abdicar da maquilhagem. É, contudo, importante não andarmos todo o inteiro de fato de treino ou de pijama. Ou de biquini. 

Subconscientemente, o nosso cérebro poderá pensar que se trata de um dia de folga e, por isso, recusar-se a colaborar.

 

… e quando queremos

Podemos decidir quando queremos gozar férias sem termos de o conciliar com as dos colegas nem esperar a aprovação do superior hierárquico. E o fim-de-semana não tem de ser sábado e domingo.

A flexibilidade de horário permite-nos também frequentar cursos, seminários, visitar exposições ou museus, ir ao cinema ou tomar o pequeno-almoço com um amigo quando queremos.

Ser jornalista

Fátima Mariano - Comunicação

O que é isso de ser jornalista? Costumo dizer que o jornalismo não é apenas uma profissão, mas também uma forma de estar na vida. Pelo menos, o jornalismo como eu o entendo, e como me foi ensinado na faculdade.

 

Não me recordo do momento em que decidi ser jornalista. Em criança, desejava ser médica veterinária; já adolescente, quis ser actriz;  afinal, acabei por me fazer jornalista. Quando anunciei a decisão, várias pessoas ficaram boquiabertas: como seria possível uma pessoa introvertida e de poucas falas ser jornalista? É possível, e não sou a única pessoa a prová-lo.

 

Lembro-me de que quando a Guerra do Golfo começou, no verão de 1990, comprei o jornal Público diariamente (incluindo as segundas edições) para acompanhar o mais possível o que se passava. Não perdia um noticiário na televisão nem as emissões especiais (é preciso ter em conta que não havia televisão por cabo nem Internet). Sonhava um dia estar no lugar daqueles jornalistas, mesmo no centro dos acontecimentos históricos, a denunciar o mal que grassava pelo mundo.

 

Para mim, o jornalismo era também isso. O relatar a História em primeira mão, o contribuir para uma sociedade mais justa, equitativa, informada, educada, o questionar os poderes instituídos. Tinha uma visão muito romântica do jornalismo, que se foi esboroando com os anos. Apesar de continuar a acreditar nos valores que regem (deviam reger) a profissão.

Uma questão de ângulo?

A fotografia que ilustra este texto é, de entre as várias que me retratam no exercício da profissão, a minha favorita. Foi tirada pelo saudoso João Ribeiro (1925-2016) – um dos maiores fotojornalistas portugueses – em 1998 ou 1999, quando trabalhávamos no Jornal de Notícias.

 

Estávamos a recolher informação sobre um assalto, e o Joãozinho (como carinhosamente o tratávamos) tirou a fotografia enquanto eu entrevistava um mecânico. O facto de ser um presente do João seria motivo mais do que suficiente para guardar esta fotografia num lugar de destaque. Mas não é o único.

 

Quando, na altura, a mostrei a alguns amigos, perguntaram-me em tom de gozo: «Então, agora entrevistas pneus?» É verdade. Ao primeiro olhar, e tendo em conta a posição em que me encontro, de facto, parece que estou a falar com o pneu. Também por isso, esta fotografia se destaca das outras. Porque me lembra que o jornalista tem a obrigação de ser isento e imparcial. Tem a obrigação de dar o retrato completo. De ser factual, e de remeter a opinião para os espaços próprios.

 

Não importa o meio em que o trabalho jornalístico é divulgado (papel, rádio, televisão, digital, etc.), estes valores são (ou deveriam ser) sagrados para o jornalista. Ou então, estamos a falar de outra coisa que não jornalismo.

 

De que serve realizarem-se congressos para debater a crise do jornalismo se, na prática diária, os jornalistas não respeitarem os valores-pilares da sua profissão? Para que são precisos websites de fact-checking se a confirmação dos factos é uma das obrigações dos jornalistas?

 

O suicídio

Dos muitos acontecimentos que acompanhei com o Joãozinho, recordo de um em particular. Certa manhã, soubemos que uma mulher tinha cometido suicídio, atirando-se de uma das janelas da casa na qual vivia. Quando chegámos, estava a Polícia no local, mas o corpo não estava coberto, o que causava indignação a quem por ali passava. Enquanto eu tentava perceber o que tinha acontecido, o João fotografava o cadáver.

 

Quem conheceu o João sabe que ele seria incapaz de explorar o lado mórbido da história. Queríamos apenas denunciar o facto de o corpo daquela mulher estar na via pública, descoberto, visível aos olhos de todos, e há muito tempo. Há demasiado tempo.

 

Passaram-se algumas horas até o cadáver ser tapado, e só quase oito horas depois da morte, foi retirado pelas autoridades. O motivo? Não havida delegado de saúde disponível para declarar o óbito no local. E esta foi a nossa história.

 

Enquanto acompanhávamos o caso (não arredámos pé até o corpo ser levantado), disfarçadamente, o João entregou-me o rolo que continha as fotografias com o cadáver a descoberto (sim, nesta época, os fotógrafos ainda trabalhavam com rolo). Fiquei confusa, e perguntei-lhe: «Porquê?» A resposta surpreendeu-me: «Não vá a Polícia querer confiscar o rolo da máquina. Assim, levam o rolo errado.» E sorriu.

 

Não sei se esta atitude do João se deveu ao facto de ter trabalhado durante muitos anos num país em que a liberdade de imprensa não existia. O importante para ele, naquele momento, era salvaguardar as provas de um caso que devia ser denunciado. Esta foi apenas uma das muitas lições que aprendi com o Joãozinho. Sobre a profissão, e sobre a vida.

 

Passagem de testemunho

Esta troca de conhecimentos e de experiências entre as várias gerações é algo que faz muita falta ao jornalismo actual. Os jornalistas mais experientes são, quase sempre, os primeiros a serem despachados nos processos de despedimento ou de «rescisão amigável».

 

As redacções estão cada vez mais vazias de pessoas, e as que subsistem mal têm tempo para respirar quanto mais para acompanhar os jornalistas em início de profissão.

 

Há cada vez mais jornalistas sem redacção, e cada vez mais redacções sem jornalistas.