A importância da revisão de texto

A revisão de texto é tão importante como o processo de escrita. Não tem como objectivo apenas a correcção de erros ortográficos e gramaticais. Visa igualmente identificar palavras em falta, uniformizar a escrita (por exemplo, escrever os números sempre em algarismos ou sempre por extenso), corrigir frases pouco legíveis ou muito longas, etc. Ou seja, tem também como função completar o texto e melhorar o estilo.

Esta etapa é útil a qualquer redactor. Mesmo os livros escritos por revisores/as de textos profissionais são revistos por outra pessoa. Esta fase é particularmente importante para quem ainda se sente inseguro na escrita.

A qualidade do texto depende em muito de uma boa revisão. Um texto bem revisto é essencial para transmitir a mensagem que quer. Se apresentar um texto com erros gramaticais, frases longas ou confusas, terá muita dificuldade em comunicar as suas ideias. Por outro lado, poderá fazer com que os/as leitores/as desistam da leitura a meio.

Todo o tipo de texto deve ser revisto. Seja um artigo científico, uma tese de doutoramento, um artigo científico ou para um blogue, ou o texto de uma newsletter. Esta operação exige tempo e muita atenção, e só deve ser feita quando o texto estiver na sua versão final.

Embora importante, não eternize a fase de revisão. Lembre-se, não há textos perfeitos. O seu pode não conter qualquer erro de ortografia ou de sintaxe, mas o estilo de escrita nunca agradará a todas as pessoas. Por conseguinte há um momento em que tem de o dar por terminado.

No artigo desta semana, apresento-lhe seis dicas para fazer uma boa revisão do seu texto. Estas técnicas são fruto de muitas leituras, mas também da minha experiência enquanto redactora profissional e revisora de textos. Se tiver mais sugestões, partilhe connosco escrevenda-os nos comentários.

 

6 técnicas para rever o seu texto

1 – Dê descanso ao texto

Quando o cérebro está familiarizado com o texto, mais facilmente lhe escapam eventuais erros que este possam conter. Até porque a ciência já provou que o cérebro consegue ler as palavras mesmo quando as letras estão baralhadas.

Por esse motivo, é importante colocar o texto de parte durante algum tempo. Durante esse período, faça outro tipo de actividades, preferencialmente não relacionadas com a escrita. Quando voltar a ler o texto, será mais fácil identificar gralhas, repetição de palavras, problemas de legibilidade, etc.

Vários escritores – mesmo os premiados – adoptam esta estratégia para melhorarem os seus livros. Mas esta é também uma técnica que pode ser aplicada a textos mais curtos. Este artigo que está a ler esteve em descanso alguns dias.

 

2 – Utilize um corrector ortográfico automático…

… mas moderadamente. Os correctores ortográficos automáticos – como o do Office – são úteis para detectar erros grosseiros. No entanto, antes de o utilizar, verifique que acordo ortográfico está a ser seguido. Se escreve segundo o acordo ortográfico de 1945 e o seu corrector ortográfico usa o de 1990, certamente lhe assinalará erros que o não são.

Mas apesar de útil, não utilize apenas este recurso. Nenhum corrector ortográfico automático assinalará como erro a expressão «ir de encontro a» quando quer dizer «ir ao encontro de» ou «á» quando o correcto é «à» ou «há».

Apesar de proveitosa, é preciso ter consciência de que esta ferramenta tem limitações. A consulta de dicionários, de gramáticas e de prontuários também é aconselhável.

 

3 – Peça a alguém que leia o texto

Como referi anteriormente, o nosso cérebro habitua-se aos textos por nós escritos, pelo que podem escapar-nos alguns erros. Alguém que leia o texto pela primeira vez não tem esse condicionamento. Logo, mais facilmente identificará erros que possam existir.

Essa pessoa poderá também assinalar frases que não estejam tão legíveis ou que sejam longas. Por vezes, sabemos o que queremos escrever, mas temos dificuldade em transpor a mensagem para o papel (ou para o ecrã) e de uma forma simples. Um outro olhar sobre o texto será muito útil para torná-lo mais compreensível.

 

4 – Leia em voz alta e devagar

Ler um texto em voz alta permite-lhe perceber se as frases são fáceis de compreender, se há repetição de palavras, se a pontuação está correcta ou se uma palavra está bem escrita.

Como explica José M. de Castro Pinto, em Novo Prontuário Ortográfico com Novo Acordo Ortográfico, «A pontuação serve para ajudar a compreender a leitura das frases, marcar as pausas e o ritmo, indicar a entoação».

Ao lermos o texto em voz alta mais facilmente perceberemos onde devem ser colocados os sinais de pontuação. Sempre que possível, leia o texto em voz alta e devagar. Se o texto não for muito longo, pode gravar a sua leitura e ouvi-la ao mesmo tempo assinala as correcções.

 

5 – Em papel ou no computador?

Embora a revisão do texto feita em computador permita utilizar correctores ortográficos automáticos e seja mais amiga do ambiente, há quem prefira fazê-la em papel. Escolha a opção com a qual se sinta mais confortável para realizar esta tarefa.

Pessoalmente, prefiro o computador. Se preferir rever o texto em papel, utilize uma régua opaca para isolar a frase que está a ler e assinale as correcções com uma caneta vermelha.

 

6 – Em silêncio

Pode não ser em silêncio total. Eu, por exemplo, preciso de ter sempre uma música de fundo a tocar, embora muito baixinho. Tem é de ser música calma.

Fazer a revisão do texto com a televisão ligada, ou as notificações do e-mail e das redes sociais activadas, ou num sítio muito ruidoso, não é uma boa escolha.

A mais pequena distracção pode levá-lo/a a não identificar os erros e obrigá-lo/a a rever o texto uma segunda ou terceira vezes.

 

Em jeito de conclusão

As seis técnicas apresentadas neste artigo poderão ser utilizada em conjunto ou isoladamente. Depende do tamanho do texto e do tempo de que dispõe para o publicar ou entregar. A decisão sobre quais as que deve adoptar deverá ser tomada caso a caso.

A revisão do texto não lhe permite apenas corrigir erros. Ajuda-o/a a identificar quais as suas fragilidades na escrita, o seu estilo de escrita, a enriquecer o vocabulário e a familiarizar-se com as regras da gramática.

Quando estiver a corrigir os seus textos, anote – preferencialmente num bloco de notas em papel – os seus erros mais recorrentes e os sinónimos que tenha descoberto no dicionário para não repetir a mesma palavra muitas vezes.

À medida que for ganhando prática na revisão, menos erros vai cometer durante a escrita dos textos e mais aprimorado ficará o seu estilo de escrita.

A escrita dos números

A escrita dos númeors

A escrita dos números é algo ao qual normalmente não damos muita atenção. A ortografia portuguesa não apresenta regras específicas para a escrita dos números, ficando dependendo do estilo de escrita do/a autor/a do texto ou da decisão das organizações (é o caso, por exemplo, dos livros de estilo dos órgãos de comunicação social). O importante é que as opções sejam respeitadas em todo o texto. Ou seja, não devemos escrever umas vezes «5» e outras «cinco».

Embora não existam regras estabelecidas, há, no entanto, algumas recomendações sobre esta matéria. Neste artigo, apresento-vos alguns desses conselhos:

 

AS REGRAS

1 – Os números cardinais de zero a nove devem ser escritos por extenso.  Escreva «três casas» e não «3 casas»;

 

 

2 – Os números ordinais do primeiro ao décimo também devem ser escritos por extenso. Escreva «O Bernardo ficou em primeiro lugar» e não «O Bernardo ficou em 1.º lugar»;

 

3 – As fracções seguem a mesma regra dos dois pontos anteriores. Escreva «um terço» e não «1/3»;

 

 

4 – A partir do número 10 000, separe os algarismos com um espaço em branco e não com um ponto. Escreva «20 345» e não «20.345»;

 

 

5 – Quando os últimos cinco ou seis dígitos forem zero, devem ser substituídos por uma palavra. Em vez de 3 000 000, escreva 3 milhões; em vez de 160 000 000, escreva 160 milhões;

 

 

6 – Os decimais devem ser escritos em numeral. Escreva «0,50» e não «zero vírgula cinquenta»;

 

 

7 – Os números devem ter, no máximo, duas decimais. Escreva «0,40» e não «0,40379»;

 

 

8 – Não comece uma frase com um algarismo, mas com um cardinal. Escreva «Cinco anos depois, a equipa venceu o campeonato» e não «5 anos depois, a equipa venceu o campeonato»;

 

 

9 – Bilião ou mil milhões? Este é um erro muito comum cometido, inclusive, por jornalistas. O bilião utilizado nos Estados Unidos da América e no Brasil corresponde a mil milhões em Portugal. O trilião é que equivale ao nosso bilião.

 

Regras para a escrita de números

AS EXCEPÇÕES

1 – Não devem ser escritos por extenso os números cardinais de 0 a 9 referentes a:

  • unidades de medida (1 metro), de peso (5 quilos), de área (9 metros quadrados), de volume (2 decímetros cúbicos) e de capacidade (3 litros);
  • idade (1 ano), horas (1 hora), datas (1 de Janeiro), número das páginas (pág. 1);
  • percentagens (1%), valores monetários (1 €), proporções (1/10);
  • temperatura (30º), latitude e longitude (2 graus de latitude e 9 graus de longitude) e sequências (capítulo 2, modelo 4);
  • os resultados eleitorais e desportivos e as operações matemáticas também não são escritos por extenso;

 

2 – A regra anterior também se aplica às seriações e à numeração dos artigos de diplomas legais: 1.º Congresso Nacional, 2.º Encontro Internacional, etc.; e Artigo 4.º da Lei do arrendamento, parágrafo 5.º do artigo 3.º do Código Civil, etc.;

 

 

3 – Os números superiores a 10 só devem ser escritos por extenso quando estão no início das frases ou dos títulos. Ex: Trinta e cinco casas arderam ontem em Lisboa;

 

4 – Se existirem números superiores e inferiores a 10 na mesma frase, todos deverão ser escritos em algarismo. Ex.: O inquérito revelou que 3 em cada 20 mulheres confessaram ter dificuldades em adormecer antes da uma da manhã;

 

5 – Não inicie frases com números muito extensos. Remeta-os para o meio ou fim da frase. Em vez de escrever «35 467 mulheres responderam ao inquérito», escreva «O inquérito foi respondido por 35 467 mulheres»;

 

6Os números de porta e de andar não devem ser escritos por extenso. Escreva «Ela mora no 2.º direito do n.º 4» e não «Ela mora no segundo direito do número quatro»;

 

 

7 – Usam-se sempre algarismos em esquemas, gráficos, ilustrações, quadros e tabelas.